1ª Leitura: Ap 7,2-4.9-14

Sl 23

2ª Leitura: 1Jo 3,1-3

Evangelho: Mt 5,1-12a

 

“Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.” Mt 5,8

 

Cada Domingo, professamos nossa fé na “Comunhão dos Santos”, que nada mais é do que a união mística entre aqueles que já estão na bem-aventurança celeste, aqueles que se purificam a fim de nela penetrar e nós, que militamos sob o estandarte de Cristo. A Solenidade de hoje, na qual nós celebramos “numa só festa os méritos de todos os santos[1] se torna uma ocasião propícia para refletirmos sobre o chamado primeiro que Deus faz a cada um de nós, e que está na raiz da nossa vocação cristã: o chamado à santidade.

Deus se apresenta na Escritura do AT como aquele que é Santo. O termo hebraico para designar “santo” tem o significado básico de “separado”. Deus é “Santo” porque é o totalmente outro, separado do mundo. A santidade de Deus tem também sentido ético: Ele é inacessível ao mal. Deus, que é Santo, cria o mundo e o homem e deseja comunicar ao homem a sua santidade. Aquele que é totalmente separado de nós, quer se unir a nós. Depois de várias tentativas de restabelecer com a humanidade a aliança que foi terrivelmente rompida com o pecado original, Deus escolhe um povo e o separa, o consagra para si. Através da sua fé e da sua vida moral Israel deve ser o “povo santo de Deus”, um povo separado, diferente dos outros povos. Israel deveria um sinal, um sacramento da santidade do próprio Deus.

Nós somos o novo povo de Deus: a Igreja. Esse chamado à santidade, dirigido outrora à Israel, é dirigido agora a todo aquele que, sentindo-se chamado a viver a fé, se torna membro efetivo da Igreja pelo Batismo. São Paulo vai dizer que nós fomos reconciliados com Deus, e que agora devemos ser “santos”: “Vós éreis outrora estrangeiros e inimigos, pelo pensamento e pelas obras más, mas agora, pela morte, ele vos reconciliou no seu corpo de carne, entregando-o à morte para diante dele vos apresentar santos, imaculados e irrepreensíveis…” (Cl 1,21-22)

O Evangelho deste domingo nos indica o caminho para a santidade: as bem-aventuranças. Segundo o Catecismo, no n. 1717, elas “traçam a imagem de Cristo e descrevem a sua caridade; exprimem a vocação dos fiéis associados à glória de sua Paixão e Ressurreição”.

Jesus enumera oito categorias de pessoas que são “bem-aventuradas”. A nona bem-aventurança é dirigida de modo direto aos discípulos, que devem se “alegrar e exultar” quando forem perseguidos por causa de Cristo, “porque será grande a sua recompensa”.

Poderíamos nos deter sobre cada uma das bem-aventuranças. Contudo, por razões de brevidade, poderíamos refletir hoje sobre a pureza de coração. Para os “puros de coração” é prometida a “visão de Deus”. O Senhor nos convida não somente a uma pureza corporal. A pureza corporal é uma consequência da pureza de coração. Se alguém possui o coração puro, também o seu corpo se tornará puro, porque manifestamos exteriormente aquilo o que temos em nosso coração. Não é isso que o Senhor nos ensina quando diz que “o que torna o homem impuro é o que sai de dentro dele…” (Mc 7,20-23)?

Se queremos ver a Deus, devemos buscar a pureza de coração. Devemos ter um coração simples, livre da duplicidade. Devemos buscar com o nosso coração uma só coisa e não muitas coisas. Devemos buscar com o nosso coração somente o bem por excelência que é Deus, porque n’Ele encontraremos todos os outros bens dos quais necessitamos.

Buscamos a pureza de coração porque queremos “ver a Deus”. Quem é puro de coração, de uma certa forma, já contempla Deus aqui, porque começa a ter sobre o mundo e os homens um pouco do olhar de Deus. Todavia, é sobretudo a visão beatífica que aguardamos. Aquele dia no qual nos apresentaremos diante do Senhor, diante do seu trono, trazendo as nossas vestes alvejadas no Sangue do Cordeiro. Aquele dia no qual nós agitaremos as nossas palmas, como sinal da nossa vitória. Essa é a visão de João na primeira leitura.

O vidente de Patmos está numa liturgia, no Dia do Senhor, e contempla coisas maravilhosas. Cada Domingo, a visão de João se realiza na liturgia, embora ainda em figura. Reunidos para celebrar os Santos Mistérios, somos como essa multidão de santos, que trajamos espiritualmente a veste branca do nosso batismo e nos apresentamos diante do trono do Cordeiro, agitando os ramos espirituais que trazemos, nós que também chegamos aqui vindos da grande tribulação na qual vivemos durante a nossa semana. Mas, o que nos anima é a certeza de que nós estaremos também unidos a estes a quem hoje celebramos, trajando nossas vestes brancas, alvejadas no sangue do Cordeiro e estaremos diante do trono do Senhor da glória e Ele será, então, “tudo em todos”.

Enquanto aguardamos esse dia, nos consolemos com a Palavra do Apóstolo João. Ele nos anima na segunda leitura de hoje com o texto da sua primeira carta. João nos apresenta qual deve ser o motivo da nossa alegria: “Sermos chamados Filhos de Deus!” Ele nos comunica isso como uma certeza: “Nós o somos!” Assim, ele nos transmite o motivo da nossa esperança: “Nem sequer se manifestou o que seremos (…) quando Jesus se manifestar seremos semelhantes a Ele porque o veremos tal como Ele é.” A visão do Cristo tornará plenamente manifesta a santidade que Ele nos concedeu.

Concluímos com as palavras do Salmista: “É assim a geração dos que procuram o Senhor!”[2] Sejamos essa geração: a dos que buscam o Senhor! Contemplemos o Cristo e a contemplação fará resplandecer em nós a face d’Aquele que nos santificou pela sua morte e ressurreição.

 

 

[1] Cf. Oração Coleta da Missa de Todos os Santos.

[2] Cf. Refrão do Salmo 23 proposto para a Liturgia da Palavra da Missa de Todos os Santos.