A Eucaristia é composto por duas partes principais: a Liturgia da Palavra e a Liturgia Eucarística. A Liturgia da Palavra é precedida pelos ritos iniciais que têm como finalidade “fazer com que os fieis, reunindo-se em assembleia, constituam uma comunhão e se disponham para ouvir atentamente a palavra de Deus e celebrar dignamente a Eucaristia” (cf. IGMR 46).

Os ritos iniciais são: a entrada, a saudação, o ato penitencial, o kyrie, o Glória (nos Domingos, Solenidades e Festas) e a oração do dia (chamada de oração coleta).

 

  • Ritos Iniciais

 

Antes de falarmos da Liturgia da Palavra nos deteremos em dois momentos dos ritos iniciais: o Ato Penitencial e o Hino de Louvor.

 

  • O Ato Penitencial

 

Sendo a liturgia modelo de toda oração cristã, vemos aqui como a escuta da Palavra deve ser precedida de uma atitude de “conversão” e, também, de “louvor”, aliás, devemos nos recordar que a “Eucaristia” é a “ação de graças” por excelência de todo cristão.

Essa atitude de conversão era marcada no Antigo Testamento pelo verbo shuv e pelo substantivo teshuvá. O verbo shuv significa “voltar”. A teshuvá, a conversão, é, pois, uma “volta para Deus”, um retorno para o caminho de Deus do qual nos afastamos muitas vezes. No contexto do Antigo Testamento é elucidativo o texto de Os 14,2-3: “Volta, Israel, para o Senhor, teu Deus, pois tropeçaste em tua falta. Tomai convosco palavras e voltai para o Senhor; dizei-lhe: ‘Perdoa toda a culpa, aceita o pacto. Em lugar de touros nós queremos oferecer nossos lábios’.”

No contexto do Novo Testamento esse chamado à conversão vem expresso, dentre muitos outros textos, no início da pregação de Jesus no evangelho de Marcos, mais precisamente em Mc 1,15: “Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus se aproximou. Convertei-vos e crede no Evangelho.” O verbo aqui traduzido como “converter” é o grego metanoeithe. O verbo metanoeithe é formado por duas palavras gregas: o prefixo meta, que significa “mudança”; e o final noeithe vem do substantivo nous (lê-se ‘nús’) que significa “pensamento”. Converter-se significa, pois, “mudar de pensamento”. Mas, mudar de qual para qual pensamento? Mudar da forma de pensar do mundo para a forma de pensar do evangelho, por isso Jesus complemente “…e crede no Evangelho”.

A Palavra que vamos ouvir é que vai nos ajudar no caminho de conversão. Todavia, a Palavra só pode ser ouvida se já nos abrirmos à esse chamado de Deus.

 

  • O Hino de Louvor

 

O Hino de Louvor, além de nos conectar com o texto de Lc 2,14, quando uma multidão do exército celestial aparece aos pastores cantando louvores a Deus, ele nos conecta também com um ponto central da espiritualidade judaica: a Berakah. O termo Berakah, que pode ser traduzido como “louvor, ação de graças” resume o cotidiano da vida espiritual do israelita. Um povo abençoado por Deus, deve ser também um povo que o bendiz. O mesmo verbo significa “abençoar” e “bendizer”, para mostrar que existe um duplo movimento de bênção: Deus Pai, que em Cristo nos abençoa em plenitude (cf. Ef 1) e nós que respondemos a Deus no louvor e no testemunho, bendizendo seu nome.

A oração de louvor estabelece um equilíbrio no relacionamento: Deus, homem e mundo. Através da “berakah” o homem percebe o mundo como dom de Deus e Deus como a origem de todo o criado

O único proprietário de tudo o que existe é Deus e Ele criou os bens para que o homem pudesse usufruir deles. Essa nova forma de olhar o mundo nos liberta da lógica da posse e da ganância, que tanto nos destrói; nos livra da angústia que nos causa “perder” determinado bem; fixa um novo conceito de pobreza, que não consiste mais em não ter nada, mas em usufruir dos bens sabendo que eles são, em última análise, de Deus e não meus, por isso não vou me apegar a eles, e o que sobra não é mais meu, mas do irmão mais necessitado.

Quem acumula o desnecessário deixa o irmão desprovido do essencial. Aqueles que acumularam o Maná no deserto se arrependeram, pois ele apodreceu e deu vermes (Ex 16, 19-21). Usar um bem deste mundo sem bendizer a Deus por ele é profaná-lo. Conta uma velha história judaica que quando Abraão recebia um visitante e lhe oferecia alguma refeição, dizia ao final: “Bendizei!” Se ele bendizia a Deus pelo dom da refeição, saia sem pagar nada. Caso se recusasse a bendizer ao Eterno, Abraão dizia: “Então, paga o que deves!” Essa história nos mostra o sentido da berakah: quem não bendiz a Deus pelos bens deste mundo não entrou ainda na lógica do dom, e vê a tudo como sendo uma relação de comércio e troca.

Tudo é razão para bendizer, até mesmo o sofrimento. Bendizer a Deus pelo sofrimento não é masoquismo. Trata-se de reconhecer que n’Ele tudo ganha sentido, até mesmo o sofrimento.

Devemos bendizer a Deus até quando caímos no pecado. Não porque achamos que foi bom ter pecado, mas porque sabemos que Deus é capaz de transformar qualquer situação de trevas em luz. Deveríamos bendizer a Deus diante de uma situação de pecado dizendo com o profeta Miquéias 7,18-20: “Bendito sejas tu Senhor, nosso Deus, Rei do Universo, que tiras a culpa e perdoas o crime, que não guardas para sempre a sua ira, porque prefere o amor. Bendito sejas tu que tem misericórdia de nós, que calca aos pés nossas faltas e lança no fundo do mar todos os nossos pecados.”

Bendizer a Deus nos faz reconhecer os inúmeros milagres que Deus realiza no nosso dia a dia. Por trás de tudo o que nos parece comum e corriqueiro está a mão providencial de Deus que conduz a história.

 

  • A Liturgia da Palavra

 

Sabemos que Cristo se faz presente na liturgia eucarística de quatro formas segundo SC 7 e IGMR 27: na assembleia reunida, no ministro que a preside, na Palavra proclamada e nas espécies eucarísticas.

Existe um autor oriental, chamado Alexander Schmemann que afirma ser a Eucaristia o “sacramento da assembleia”:Quando digo que vou à Igreja isso significa que vou à assembleia dos fiéis para constituir a Igreja com eles, para ser aquilo que me tornei no dia do meu batismo, um membro do Corpo de Cristo, no sentido mais pleno do termo (cf. 1 Cor 12,27). Eu vou à Igreja para manifestar a minha qualidade de membro, para atestar diante de Deus e do mundo o mistério do Reino, já presente na sua potência (cf. Mc 9,1). (…) A assembleia na Igreja é o nosso ministério e o nosso primeiro dever. Nós fomos consagrados à assembleia e ela nos pertence, a fim de que nós, por nós mesmos, não nos separemos dela. Nos primeiros séculos do cristianismo, aquele que não participava da assembleia eucarística, sem um motivo válido, era excomungado, porque ele, por si mesmo se excluiu da unidade orgânica do Corpo de Cristo manifestada pela liturgia”.[1]

Eu diria que a Eucaristia é o sacramento da assembleia que se reúne para escutar a Palavra. É o Corpo Místico de Cristo que se reúne, atento ao que vai lhe dizer Aquele que é a sua Cabeça.

A assembleia dominical é uma comunidade de escuta, que se reúne atendendo ao apelo de Dt 6,4: “Ouve, ó Israel!” Esse povo reunido numa atitude de escuta é um povo faminto, que quer alimentar-se do pão da Palavra, porque a Palavra também é pão de Deus para nós, como afirmou Cristo em Mt 4,4b citando Dt 8,3: “Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus”.

São fundamentais, para entendermos o valor e o sentido da liturgia da Palavra, três números da SC: o 24, o 33 e o 56. O n. 24 da SC afirma: “Na celebração litúrgica é máxima a importância da Sagrada Escritura”. Depois no n. 33 o documento afirma: “Pois na liturgia Deus fala a seu povo. Cristo ainda anuncia o Evangelho.” E, por fim no n. 56 a Sacrosanctum Concilium afirma: Estão tão intimamente ligadas entre si as duas partes de que se compõe, de algum modo, a missa – a liturgia da Palavra e a liturgia eucarística – que formam um só ato de culto.”

Algumas vezes se enfatiza somente a “mesa eucarística”, e se reduz a “mesa da Palavra” como mera preparação para a mesa eucarística. A assembleia litúrgica é o lugar privilegiado para ouvirmos a Palavra de Deus. É claro que, para que essa Palavra seja melhor compreendida e absorvida, o ideal é que tenhamos um contato íntimo e diário com a mesma, através da assim chamada “leitura orante” (Lectio Divina). Contudo, em nenhum outro lugar a Palavra nos atinge como na liturgia, pois ali ela torna presente para nós o evento anunciado, de forma misteriosa.

Elucidativo é, para nós, o texto do Ordo Lectionum Missae:

“Na celebração litúrgica a palavra de Deus não se exprime sempre do mesmo modo, nem penetra sempre nos corações dos fiéis com a mesma eficácia; mas Cristo está sempre presente em sua palavra e, realizando o mistério da salvação, santifica os homens e presta ao Pai o culto perfeito. Mais ainda, a economia da salvação que a palavra de Deus não cessa de recordar e prolongar, alcança seu mais pleno significado na ação litúrgica, de modo que a celebração litúrgica se converta numa contínua, plena e eficaz apresentação desta palavra de Deus. Assim, a palavra de Deus, proposta continuamente na Liturgia, é sempre viva e eficaz (cf. Hb 4,12) pelo poder do Espírito Santo, e manifesta o amor ativo do Pai, que nunca deixa de ser eficaz entre os homens.” (n. 4)

 

“A Igreja cresce e se constrói ao escutar a palavra de Deus, e os prodígios que de muitas formas Deus realizou na história da salvação fazem-se presentes, de novo, nos sinais da celebração litúrgica, de um modo misterioso, mas real; Deus, por sua vez, vale-se da comunidade dos fiéis que celebra a liturgia, para que a sua palavra se propague e seja conhecida, e seu nome seja louvado por todas as nações. Portanto, sempre que a Igreja, congregada pelo Espírito Santo na celebração litúrgica, anuncia e proclama a palavra de Deus, se reconhece a si mesma como o novo povo, no qual a aliança antigamente travada chega agora à sua plenitude e perfeição. Todos os cristãos, que pelo batismo e a confirmação no Espírito se convertem em mensageiros da palavra de Deus, depois de receberem a graça de escutar a palavra, devem anunciá-la na Igreja e no mundo, ao menos com o testemunho de sua vida. Esta palavra de Deus, que é proclamada na celebração dos divinos mistérios, não só se refere às circunstâncias atuais, mas também olha para o passado e penetra o futuro, e nos faz ver quão desejáveis são as coisas que esperamos, para que, no meio das vicissitudes do mundo, nossos corações estejam firmemente postos onde está verdadeira alegria” (cf. n. 7)

 

Já um autor do século II, chamado Orígenes, criticava alguns da comunidade cristã, que tinham um justo zelo pelas espécies eucarísticas, não querendo que se perdesse nenhum fragmento delas, mas que com a Palavra não procediam da mesma forma, escutando de forma desatenta o Cristo que fala à assembleia através da sua Palavra, Ele que é a própria Palavra do Pai, segundo nos lembra São João no prólogo do seu Evangelho (cf. Jo 1, 1-14). Os Padres da Igreja não receavam em equiparar as duas mesas, a da Palavra e a da Eucaristia. São Cesário de Arles afirmava que a “Palavra de Cristo não é menos do que o Corpo de Cristo”[2]. Também Santo Agostinho afirmava que se bebe Cristo tanto no cálice das Escrituras quanto no cálice eucarístico.[3]

 

Vejamos o que nos diz o Catecismo:

 

A liturgia da Eucaristia desenrola-se segundo uma estrutura fundamental que se conservou ao longo dos séculos até nossos dias. Desdobra-se em dois grandes momentos que formam uma unidade básica:

  • a convocação, a Liturgia da Palavra, com as leituras, a homilia e a oração universal;
  • a Liturgia Eucarística, com a apresentação do pão e do vinho, a ação de graças consecratória e a comunhão.

Liturgia da Palavra e Liturgia Eucarística constituem juntas “um só e mesmo ato do culto”; com efeito, a mesa preparada para nós na Eucaristia é ao mesmo tempo a da Palavra de Deus e a do Corpo do Senhor. Por acaso não é exatamente esta a sequência da Ceia Pascal de Jesus ressuscitado com seus discípulos? Estando a caminho, explicou-lhes as Escrituras, e em seguida, colocando-se à mesa com eles, “tomou o pão, abençoou-o, depois partiu-o e distribuiu-o a eles”. (CIC 1345-1347)

 

Essa estrutura – Palavra – Sacramento – nós temos também no final do Evangelho de Lucas (Lc 24,13-35), quando o próprio Cristo, presente no meio dos dois, lhes explica as Escrituras e depois de abençoar o pão a parte, ficando com os discípulos de uma maneira nova (na fração do pão).

Daqui derivam consequências práticas: o zelo pelo livro da Palavra de Deus (Lecionário/Evangeliário), pelo lugar próprio de sua proclamação (Ambão) e pela proclamação em si (cuidado na escolha e preparação dos leitores).

As leituras são interligadas de modo a se formar uma estrutura orgânica na proclamação da Palavra. Nas assembleias dominicais a primeira leitura está sempre em conexão íntima com o Evangelho, formando uma estrutura de Profecia (primeira leitura, sempre do AT) e Realização (Evangelho). O Salmo é a resposta da assembleia à promessa de Deus feita na primeira leitura e deveria ser sempre cantado. A segunda leitura é sempre uma leitura continuada, ou seja, se começa a leitura de determinado livro do NT, quase sempre uma carta, e sua leitura é continuada até que ele termine. A segunda leitura nos demonstra a realização daquela Palavra proclamada no Evangelho na vida da Igreja.

Temos, então, a seguinte estrutura: Promessa (primeira leitura) – Resposta da Assembleia (salmo) – Realização da Promessa (Evangelho) – Fruto dessa realização na vida eclesial nascente (Segunda Leitura). As leituras são divididas ainda em três ciclos: A, B e C. Cada um marcado por um dos Evangelhos Sinóticos respectivamente: Mateus, Marcos e Lucas.

Durante a Semana seguimos um ciclo diferente, em anos pares e impares, conservando-se, contudo, o mesmo texto do Evangelho.

A fim de que a Liturgia da Palavra transcorra com ordem e para que se guarde o silêncio sagrado entre as leituras (cf. IGMR 56)[4], tão necessário para que a Palavra seja melhor assimilada, devem ser cortados os comentários e monições desnecessários, como anunciar o nome do leitor, dizer “primeira leitura”, se repetir toda hora “todos” ou “refrão” no Salmo Responsorial, ficar indicando o nome do livro bíblico com capítulo e versículo quando todos possuem o jornalzinho etc.

Sobretudo, porque no momento da proclamação da Palavra ninguém deveria se preocupar com o folheto nem mesmo com o livro da Sagrada Escritura. Todos, como um corpo orgânico, deveriam voltar-se para a mesa da Palavra (ambão – omphalo – umbigo da Igreja) com o intuito de OUVIR a Palavra de Deus que está sendo proclamada.

A Escritura e a Liturgia estão intrinsecamente ligadas. Por isso, a proclamação da Palavra de Deus não é mera preparação para a mesa eucarística. O evento histórico realizado de uma vez por todas para a nossa salvação é interpretado e transmitido a nós na Escritura. A liturgia, por sua vez, através justamente da proclamação bíblica do evento celebrado, como afirma São Leão Magno, nos coloca em contato através dos sinais sacramentais com esse evento e o atualiza na nossa vida. A Palavra de Deus nos leva à liturgia e esta, por sua vez, nos leva de novo à Palavra, porque a atualiza no hoje celebrativo.

Aquele evento transmitido a nós pela Palavra no contexto litúrgico ganha uma nova roupagem, porque é atualizado no nosso hoje histórico e selado, feito Aliança, com o sacrifício que se renova na liturgia. É o movimento que podemos ver, por exemplo, em Ex 24,1-8. Moisés reúne o povo em Assembleia, proclama diante dele a Aliança com o Senhor registrada na Palavra, o povo responde à Palavra afirmando que obedecerá tudo o que foi prescrito pelo Senhor e a Aliança é selada com um sacrifício.

Depois da proclamação da Palavra de Deus o sacerdote ou diácono deve proferir a homilia, que não deve uma explicação moralizante, mas deve sim ser uma provocação à assembleia que escuta. O homileta deve sempre relacionar aquela Palavra proclamada com a celebração em si, com os textos eucológicos[5] e com a vida da comunidade celebrante.

Depois de ouvir a Palavra de Deus o povo responde com um grande Amém que é a profissão de fé, como que confirmando, assim como fizera o povo em Ex 24, que reconhece naquela Palavra a verdade e que se compromete com ela.

Refeitos assim pela Palavra e tendo respondido afirmativamente a esta mesma Palavra o povo está pronto para a grande Oração da Assembleia, ou seja, para apresentar a Deus os seus pedidos, mas não numa oração egoísta, onde cada um somente olha para as suas necessidades pessoais, mas vendo-se dentro do contexto da assembleia e percebendo, à luz da Palavra de Deus, quais são as suas reais necessidades.

[1] Cf. ALEXANDER SCHMEMANN, L’Eucaristia, Sacramento del Regno, Magnano, Qiqajon, 2005

[2] Sermão 78,2

[3] Comentário aos Salmos I,33

[4] IGMR é a sigla que utilizamos para abreviar “Instrução Geral sobre o Missal Romano”

[5] Obs.: Textos eucológicos são aqueles textos utilizados na celebração da  liturgia e que não são bíblicos. Ex.: A oração eucarística, os diversos “oremos” etc.