Sb 6,12-16

Sl 62 (63)

1Ts 4,13-18

Mt 25,1-13

 

O noivo está chegando…

 

            Ao aproximar-se o final do ano litúrgico, a liturgia da Palavra nos apresenta textos que nos exortam à vigilância e a tomarmos consciência daquilo que recitamos todos os domingos e solenidades, na liturgia, quando professamos nossa fé: o Senhor Jesus virá uma segunda vez, para “julgar os vivos e os mortos”.

O tema da segunda volta de Cristo abre e encerra o ano litúrgico. Tanto no início do Advento, quanto nas últimas semanas do tempo comum somos recordados dessa realidade, pela liturgia da palavra. Essa “tensão escatológica”, ou seja, essa espera pela segunda vinda do Senhor é o que nos mantém “acordados e vigilantes”.

Os caps. 24-25 de Mateus nos apresentam o discurso escatológico de Jesus, marcado por quatro parábolas: a parábola da figueira (24,32-36); a parábola do mordomo (24,45-51); a parábola das dez virgens (25,1-13) e a parábola dos talentos (25,14-30). A terceira destas parábolas nos é apresentada neste domingo: a parábola das dez virgens (25,1-13).

O Senhor Jesus compara o Reino dos Céus a dez virgens que, tomando suas lâmpadas de óleo, saem ao encontro do noivo no cortejo nupcial. Cinco são “imprevidentes” (no original grego o termo utilizado é mopos, literalmente “loucas, insensatas”) e cinco são “previdentes” (no original grego o termo utilizado é phronimós, literalmente “sensatas, que têm bom senso”). As virgens ditas “previdentes”, “sensatas”, não somente levam as lâmpadas acesas, mas também oléo, a fim de manter acesas as mesmas lâmpadas, caso o noivo tarde a chegar. As virgens insensatas levam suas lâmpadas, mas não portam consigo óleo suficiente para que estas permaneçam acesas.

O noivo demora a chegar. Todas adormecem. É “no meio da noite” que chega o noivo. Entram com ele as que estão prontas, as virgens sensatas. As insensatas vão tentar, na última hora, adquirir óleo para suas lâmpadas, mas é tarde demais. Quando retornam, as portas da festa de casamento já se fecharam. Inutilmente eles batem à porta e gritam: Senhor! Senhor! Este lhes responderá de dentro do banquete: Em verdade, vos digo: não vos conheço! O Senhor Jesus termina a parábola com uma exortação: “Vigiai, portanto, porque não sabeis o dia nem a hora” (cf. Mt 25,13). Exortação semelhante encontramos em 24,42: “Vigiai, portanto, porque não sabeis em que dia vem vosso Senhor.”

A parábola é uma alusão à segunda vinda de Cristo. Ele é o noivo esperado. Os que o aguardam são como as virgens da parábola. Não basta portar as lâmpadas acesas, é preciso ter também óleo suficiente, a fim de que as lâmpadas possam permanecer acesas, ainda que o noivo se demore. E qual é o óleo que mantém acesa a chama da fé do cristão? Esse óleo é a busca constante de Deus. Aquele que não cessa de buscar a Deus, aquele que deseja a sabedoria, esse mantém sua lâmpada acesa todo o tempo, e fica pronto esperando o seu Senhor voltar.

A primeira leitura e o salmo nos exortam à essa busca constante de Deus. A primeira leitura é um trecho do livro da Sabedoria. A sabedoria “luminosa” e “imperecível” é “facilmente contemplada por aqueles que a amam” e se deixa encontrar “por aqueles que a procuram”. Aquele que “ficar acordado” por causa dela, haverá de viver despreocupado, porque ela mesma lhe sairá ao encontro. De que sabedoria o autor sagrado está falando, senão daquela que vem de Deus, e que nasce da meditação da Sagrada Escritura? Nesse sentido, a busca dessa “sabedoria” nada mais é que a busca do próprio Deus. O salmista também, por sua vez, se apresenta como aquele que busca a Deus “desde a aurora”, porque a sua alma “tem sede de Deus” como “terra sedenta e sem água” (cf. Sl 62[63],2). Assim como o salmista devemos também buscar a Deus todo o tempo. Desse modo, não nos faltará o óleo, que manterá acesa a lâmpada da nossa fé, enquanto esperamos o Cristo voltar.

O Cristo voltará de modo repentino, “no meio da noite”, como diz a parábola. Essa afirmação nós a podemos entender em dois sentidos:

  1. A “parusia”, ou seja, a segunda vinda do Senhor será repentina e acontecerá quando menos esperarmos;
  2. Nossa Páscoa pessoal, ou seja, nossa morte, será nosso encontro pessoal com o Cristo, e isso também não sabemos quando se dará.

Ora, se não temos como saber com precisão nem o momento da nossa morte, que será nosso encontro pessoal com o Senhor, nem o momento da sua segunda vinda, não podemos perder mais tempo: é preciso ser vigilantes! Por isso, o ano litúrgico começa e termina fazendo ressoar aos nossos ouvidos a Palavra de Cristo, que nos desperta dizendo: “Vigiai!”

Vigiamos quando somos como as virgens sensatas. Vigiamos quando mantemos acesas nossas lâmpadas com o óleo da fé, que aumenta à medida em que buscamos a Deus com todo o coração; quando nos saciamos d’Ele; quando o buscamos na Palavra e nos Sacramentos.

Somos insensatos e não vigiamos quando deixamos que as vicissitudes do dia-a-dia falem mais alto. Somos insensatos e não vigiamos quando deixamos que as dificuldades da vida sejam como um vento forte, que apaga a chama da fé, deixando-nos na mais completa escuridão.

Aproveitemos essa “tensão escatológica”, ou seja, essa expectativa da segunda vinda do Senhor que os textos bíblicos, particularmente os evangelhos, destes últimos domingos do ano litúrgico nos apresentam, para rever a nossa vida; para compreender de maneira mais profunda, que vivemos na expectativa do mundo que virá, da vida eterna junto do Senhor para a qual tendemos. É essa a perspectiva que deve guiar cada uma das nossas atitudes. E que cada domingo, Páscoa Semanal, oitavo dia[1], seja para nós uma pequena experiência do dia eterno e sem fim, no qual estaremos para sempre com o Senhor.

 

 

 

 

[1] Em alguns textos, encontramos o domingo chamado de “oitavo dia”, por ser o dia “depois do sábado”, ou seja, o dia que está depois do sétimo dia. Claro que não é propriamente o “oitavo dia”, mas sim “o primeiro”. Contudo, ao chamar o domingo de “oitavo dia” os textos cristãos queriam apresentá-lo como um símbolo do dia eterno e sem fim, do dia sem ocaso, no qual estaremos para sempre com o Senhor.