Ez 34, 11-12.15-17

Sl 22 (23)

1Cor 15,20-26.28

Mt 25, 31-46

 

Com a reforma do calendário litúrgico promovida pelo Concílio Vaticano II, a Solenidade de Cristo Rei passou a ser celebrada no último domingo do Tempo Comum, tornando-se, assim, a coroa de todo o ano litúrgico.

O início e o fim do ano litúrgico coincidem na sua perspectiva escatológica: começamos o ano preparando os nossos corações para celebrar o mistério do Natal, mas recordando-nos que o Cristo voltará no fim dos tempos; terminamos o ano celebrando a realeza do Ressuscitado e esperando, também, a sua segunda vinda como “Rei dos séculos”.

São significativas as leituras propostas para esta Solenidade neste Ciclo A que ora encerramos. A primeira leitura é um trecho do capítulo 34 do livro de Ezequiel. Este trecho e o Salmo 22, salmo responsorial dessa liturgia, nos colocam em contato com a imagem de Deus que é Rei, mas Rei-Pastor. Deus não é um Rei que simplesmente se assenta sobre o seu trono e aguarda a submissão dos seus súditos. Ele é o Rei-Pastor que vai ao encontro da ovelha, sobretudo da “perdida e da extraviada”, sem deixar, contudo, de cuidar e de vigiar da “gorda e forte” (cf. Ez 34,16).

O pastoreio de Deus, todavia, não está somente nesse plano presente. O Salmo 22 pode ser lido, por nós cristãos, em dois tempos: este presente e aquele escatológico. No sentido presente, Deus é o pastor que nos apascenta, que caminha à nossa frente, que nos guia e conduz. No sentido escatológico, Ele é Aquele que há de nos preparar, nas moradas eternas, um grande banquete. O banquete escatológico, como é referido algumas vezes nos profetas (cf. Is 25,6), significa a plenitude de comunhão que haverá entre nós e Deus no mundo futuro.

Como não entrever nesse salmo o que já experimentamos na Eucaristia? Deus já não prepara, por acaso, a cada domingo, uma mesa para nós diante do inimigo? Não se trata aqui, com certeza, de inimigos humanos, mas sim do inimigo das nossas almas, daquele que deseja nos afastar desse banquete escatológico antecipado em cada Eucaristia dominical a fim de que estejamos ainda mais submetidos ao pecado.

O final da primeira leitura, todavia, já nos deixa entrever o que nos será apresentado no Evangelho. Deus, nosso Rei-Pastor é, também, um juiz. Ez 34,17 afirma que Deus vai fazer “justiça” entre uma ovelha e outra, entre carneiros e bodes.

Essa mesma distinção, ou seja, “carneiros e bodes”, aparece na perícope evangélica deste domingo. Jesus está falando da sua vinda gloriosa e apresenta esta vinda como uma vinda de juízo. Ele virá como “Rei”, porque se assentará num “trono glorioso” (cf. Mt 25,31), mas também como pastor, porque fará justiça separando as “ovelhas dos cabritos” (cf. Mt 25,32).

Como será o juízo de Cristo? Ele mesmo diz: interrogará a cada um a respeito de algumas das assim chamadas “obras de misericórdia”. Cada um será perguntado a respeito do seu cuidado com os famintos, com os nus, com os estrangeiros, com os doentes e com os prisioneiros. Nessas cinco categorias de aflitos Jesus como que resume todos aqueles que são necessitados e em cujo socorro devemos ir. O bem feito a estes será como o bem feito ao próprio Cristo. O bem recusado a estes, por sua vez, será como o bem recusado ao próprio Cristo. Não só Cristo se identifica com os mais miseráveis, mas também nos mostra que é através do serviço aos irmãos, sobretudo daqueles mais necessitados, que conseguimos que nos seja aberta a porta da eternidade.

Poderíamos nos perguntar: mas, por que este juízo será assim? Por que o Senhor Jesus se baseará no bem feito ao próximo? E por que justamente aos famintos, aos nus, aos estrangeiros, aos doentes e aos prisioneiros? Acredito que é porque essas cinco categorias resumem o que nós somos e o que Cristo fez por nós. Cada um de nós é um faminto, um nu, um estrangeiro, um doente e um prisioneiro. Somos famintos de justiça, nus em virtude do pecado, estrangeiros nesse mundo, doentes e prisioneiros das nossas paixões. Mas Cristo nos visita e cuida de todas essas necessidades. Nós, se queremos entrar na vida eterna, devemos nos tornar semelhantes ao Cristo, e isto se dá de forma sublime quando servimos ao próximo como Ele mesmo nos serve. Cristo se apresenta, assim, como o Rei-Pastor e como o Rei-Servo, que veio “dar a sua vida” (cf. Mc 10,45), que veio “servir e não ser servido” (Mt 20,28).

Por fim, é interessante chamar a atenção para a segunda leitura, principalmente para o texto de 1Cor 15,28, quando Paulo afirma: “E, quanto todas as coisas estiverem submetidas a ele (Cristo), então o próprio Filho se submeterá àquele que lhe submeteu todas as coisas, para que Deus seja tudo em todos”. Esse versículo foi causa de muita dissensão na Igreja primitiva. O que Paulo quer dizer quando fala que Cristo se submeterá ao Pai? Os exegetas entendem essa passagem primeiro sob a ótica da relação Pai-Filho. Não é comum em Paulo encontrarmos o epíteto “Filho” para se referir ao Cristo Ressuscitado. Por isso, o uso desse epíteto aqui posto ao lado da expressão “aquele que lhe submeteu todas as coisas”, onde nós podemos subentender “o Pai”, chama a atenção. Paulo não quer afirmar, é claro, que o Filho é menos que o Pai, mas sim enfatizar que a missão do Filho desemboca na missão do Pai. A atuação terrena do Filho é parte do grande projeto salvífico do Pai ao qual o Filho, desde toda a eternidade, sempre se submeteu na sua atitude de plena obediência ao desígnio paterno. Do mesmo modo, a expressão “Deus será tudo em todos”, não pode jamais ser entendida em sentido panteísta. Alguns exegetas falam aqui de “panenteísmo paulino”, para afastar justamente o sentido dessa expressão de qualquer compreensão panteísta. Deus será tudo em todos significa que tudo estará submetido ao desígnio amoroso do Pai, mas os homens não se “diluirão” nele, perdendo sua consciência e individualidade.

Peçamos ao Senhor a graça de vivermos bem estes últimos dias do ano litúrgico. De fato, os viveremos bem se procurarmos fazer um profundo exame de consciência a fim de constatarmos se estamos ou não vivendo de acordo com a Palavra