Ano Mariano: a devoção a Nossa Senhora na Igreja

 

 

Por Pe. Fabio da Silveira Siqueira

 

 

Introdução

 

 

 A Igreja nunca deixou de valorizar as devoções populares, particularmente a devoção a Nossa Senhora. O Catecismo da Igreja Católica, citando o documento de Puebla (1979) n. 448, reconhece a beleza desse aspecto da nossa fé, afirmando que “a religiosidade do povo, em seu núcleo, é um acervo de valores que corresponde com sabedoria cristã às grandes incógnitas da existência”. O Documento de Aparecida (2007), dedica os nn. 258-265 para falar sobre a religiosidade popular como lugar de encontro com o Cristo; e assevera: “A piedade popular é uma maneira legítima de viver a fé, um modo de se sentir parte da Igreja e uma forma de ser missionários, onde se recolhem as mais profundas vibrações da América Latina” (DA 264).

Todavia, os documentos da Igreja também não cessam de afirmar que é necessário, muitas vezes, haver uma purificação das mesmas devoções (CIC 1676), a fim de que elas correspondam, retamente, ao modo de pensar cristão e ao “sentir com a Igreja”.

 

 

A devoção Mariana na Igreja

 

 

 A devoção mariana – e, na verdade, qualquer devoção aos santos, mártires, etc – envolve sempre um duplo aspecto: o seu exemplo e a sua intercessão. O aspecto da intercessão este já nos é bem conhecido e a ele recorremos com muita frequência. É sempre em torno desse aspecto que mais crescem e se difundem as devoções.

Contudo, o exemplo dos santos não pode ser deixado de lado. Eles são “modelos” a seguir, porque seguiram de modo perfeito o Cristo, “Sumo Modelo”, para cada um de nós.

 

Com relação à devoção a Virgem Maria, a Igreja não cessa de nos mostrar que ela é “modelo para os fiéis”. Assim lemos na Lumen Gentium 631: “Pelo dom e missão da maternidade divina, que a une a seu Filho Redentor, e pelas suas singulares graças e funções, está também a Virgem intimamente ligada, à Igreja: a Mãe de Deus é o tipo e a figura da Igreja, na ordem da fé, da caridade e da perfeita união com Cristo, como já ensinava S. Ambrósio” e, ainda, no n. 65: “Mas, ao passo que, na Santíssima Virgem, a Igreja alcançou já aquela perfeição sem mancha nem ruga que lhe é própria (cf. Ef 5,27), os fiéis ainda têm de trabalhar por vencer o pecado e crescer na santidade; e por isso levantam os olhos para Maria, que brilha como modelo de virtudes sobre toda a família dos eleitos.”

 

O Papa Paulo VI, em 13 de maio de 1967, três anos após a promulgação da Lumen Gentium, escreveu a Exortação Apostólica Signum Magnum, ‘Sobre o Culto da Virgem Maria, Mãe da Igreja e Modelo de todas as Virtudes’, para comemorar os 50 anos das aparições de Fátima. Nesta Exortação, o Papa afirma: “(…) nem a graça do Redentor divino, nem a intercessão poderosa da Sua Mãe e nossa Mãe espiritual, nem a sua excelsa santidade poderiam conduzir-nos ao porto da salvação, se a tudo isso não correspondesse a nossa perseverante vontade de honrar Jesus Cristo e a Virgem Santa com a devota imitação das suas sublimes virtudes. É, pois, dever de todos os cristãos imitar com espírito reverente os exemplos de bondade que lhes foram deixados pela Mãe do Céu. É esta, veneráveis Irmãos, a outra verdade sobre a qual nos agrada chamar a vossa atenção e a dos filhos confiados aos vossos cuidados pastorais, para que eles aceitem favoravelmente a exortação dos Padres do Concílio Vaticano II (LG 67): ‘Recordem-se os fiéis de que a devoção autêntica não consiste em sentimentalismo estéril e passageiro ou em vã credulidade, mas procede da fé verdadeira que nos leva a reconhecer a excelência da Mãe de Deus e nos incita a um amor filial para com a nossa Mãe, e à imitação das suas virtudes’.”

 

Estes dois pequenos textos já são suficientes para que possamos nos conscientizar de que, uma autêntica devoção a Maria inclui, em si, não somente um conjunto de orações, invocações e outras tão belas formas que utilizamos, esperando alcançar, por sua intercessão, as graças que nos podem ser advindas do Senhor. A autêntica devoção também deve nos levar a reconhecer Maria como modelo de virtudes, virtudes essas que nos são necessárias para que possamos ser verdadeiros discípulos do Cristo Senhor.

 

 

 

1  Promulgada em 21 de novembro de 1964.

 

Onde podemos conhecer essas virtudes de Maria? Qual é a fonte da qual podemos beber para nos saciar com seus santos exemplos? A fonte mais pura para isso é, sem dúvida, a Sagrada Escritura. De modo modesto, mas muito profundo, os Evangelhos e, também, os Atos dos Apóstolos, nos apresentam Maria como a ouvinte perfeita da Palavra e a crente por excelência (cf. Lc 1,45).

 

Nosso próximo passo será percorrer o evangelho da infância em Lc 1-2, com o intuito de captarmos ali quais são as virtudes de Maria que o evangelista põe em destaque. Quem sabe, contemplando estas mesmas virtudes, e fazendo com estes textos a nossa leitura orante da Palavra, não venhamos a dar o passo seguinte: tentar reproduzir em nossas vidas um pouco o que foi a vida da Virgem Maria.

 

 

 

Maria e o Evangelho de Lucas

 

 

 

 Existe uma tradição de que Lucas teria sido o primeiro iconógrafo da Virgem. A chamada “Virgem Negra” da Polônia é tida como um ícone pintado pelo próprio Lucas. De fato, no seu Evangelho da Infância, Lucas nos deixou um “retrato” da Virgem. Ao destacar a sua figura nos dois primeiros capítulos do seu Evangelho, Lucas nos “escreveu” um verdadeiro ícone de Maria, onde podemos recolher grandes exemplos de virtude e de desejo de realizar em sua vida a vontade de Deus.

 

Nesta nossa breve reflexão vamos destacar quatro dessas virtudes: a escuta; disponibilidade para o próximo; a humildade; a capacidade de louvar a Deus.

 

Maria é a ouvinte por excelência. Ela deseja que a Palavra de Deus se realize nela. É o que ela responde ao anjo em Lc 1,38: Disse, então, Maria: Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo tua palavra! Reconhecendo que, por meio do anjo, lhe era comunicada a Palavra Divina, Maria quer obedecer a esta mesma Palavra. Ela deseja que a Palavra de Deus se cumpra nela.

 

Mais tarde, em Lc 2,19 e Lc 2,51 vamos encontrar mais dois ditos sobre Maria, que demonstram a sua capacidade de escutar Deus e de guardar em seu coração a Palavra. Em Lc 2,19 está escrito: Maria,  contudo,  conservava  cuidadosamente  todos  esses  acontecimentos  e  os  meditava  em seu


coração.2 Em Lc 2,52, por sua vez, podemos ler: Sua mãe, porém, conservava a lembrança de todos esses fatos em seu coração.3

 

Em Lc 2,19 aparecem os verbos gregos syntereo e symballo. Synetereo está traduzido como “conservava cuidadosamente”. Este verbo significa “guardar um segredo”, “preservar consigo alguma coisa”. Symballo vem traduzido como “meditava”. Este verbo que significa, basicamente, “lançar junto”, pode significar também “reunir, avaliar, conjecturar, interpretar”. Maria preservava em seu coração as palavras que diziam respeito a Cristo e fazia um esforço por compreendê-las. Em Lc 2,51 aparece o verbo diatereo. Este verbo é semelhante ao que aparece em Lc 2,19 e significa também “guardar consigo” alguma coisa; “guardar fielmente” algo.

 

Maria não somente diz “sim” à Palavra uma única vez. Ela é a “serva da Palavra”. Maria nunca deixa de acolher em seu coração a Palavra do Senhor.

 

E nós? Será que damos espaço, em nossa vida de oração pessoal, para a escuta da Palavra? Quanto tempo dedicamos, em nossa oração diária, para a leitura orante da Palavra de Deus? Como nos preparamos para nosso encontro pessoal com a Palavra de Deus na liturgia da Palavra de cada Domingo? Deste encontro pessoal com a Palavra depende o crescimento da nossa vida de fé.

 

Maria está disponível para o outro. Mal acaba de receber do anjo a notícia da gravidez de Isabel, Maria sai “apressadamente” ao seu encontro. Longe de pensar em si mesma, Maria nos dá um exemplo de solidariedade. Ela confia que Deus cuidará de tudo o que é seu, se ela for diligente no cuidado com o próximo.

 

Será que também sabemos ir ao encontro do outro que precisa de nós? Ficamos fechados permanentemente em torno das nossas próprias necessidades, ou abrimo-nos ao próximo, a quem Deus nos envia, para sermos sinal do seu amor e da sua benevolência?

 

Maria é a serva humilde. Quando chega à casa de Isabel, Maria é saudada com grande efusão. E Isabel exclama: Donde me vem que a mãe do meu Senhor me visite? (cf. Lc 1,43). Maria não se exalta diante de tal saudação. Sua alma continua serena. Se ela concorda com Isabel de que todas as gerações a chamarão bem-aventurada, ela o faz sabendo que isso só será possível porque o Todo- Poderoso fez grandes coisas em seu favor, e olhou para a sua “humildade” (cf. Lc 1,47-49).

 

2 ἡ δὲ Μαριὰμ πάντα συνετήρει τὰ ῥήματα ταῦτα συμβάλλουσα ἐν τῇ καρδίᾳ αὐτῆς.

3 καὶ ἡ μήτηρ αὐτοῦ διετήρει πάντα τὰ ῥήματα ἐν τῇ καρδίᾳ αὐτῆς.

 

Maria sabe transportar para Deus toda a glória. O desejo de Maria é que todos reconheceram a grandeza d’Aquele que operou nela grandes coisas. Aí reside a sua humildade.

 

A humildade é a mãe de todas as virtudes. Como ela pode nos ajudar a viver melhor nossa relação com Deus e com os irmãos…

 

Maria é mulher do louvor e da ação de graças. Como uma boa judia, Maria conhecia bem o valor da oração de ação de graças: a Berakah. O que é o Magnificat senão uma grande oração de louvor, de ação de graças, onde Maria bendiz a Deus pelas maravilhas que Ele realizou nela, e pela sua fidelidade para com o seu povo?

 

Como precisamos aprender com Maria a bendizer… Somos tentados mais a murmurar que a bendizer. Percebemos mais as necessidades que a beleza da ação de Deus, que a todo momento nos dá, no meio das agitações de nossa vida, provas do seu amor e da sua benevolência.

 

Precisamos bendizer pelas coisas boas e também pelas situações difíceis. Ao bendizer a Deus, professamos, como Maria, nossa fé. Manifestamos a nossa certeza de que, acima de tudo, das vicissitudes do tempo e da história, reina gloriosamente o Senhor que tudo governa, conduzindo com muita paciência, a bom termo, a história dos homens.

 

 

 

Conclusão

 

 

 

 Com estas “pistas” retiradas da Escritura, particularmente do Evangelho de Lucas, esperamos ter contribuído para que, neste Ano Mariano, cresça a nossa devoção à Mãe de Deus. Que esta devoção cresça e amadureça. Não seja a nossa devoção parcial. Possamos nós recorrer, sim, à Maria em nossas necessidades e aflições como nossa intercessora, mas possamos nos lembrar, também, em todos os momentos, que Ela é nosso grande modelo, espelho de virtudes… virtudes essas que queremos reproduzir, apesar de nossas limitações, em nosso dia a dia.