Ez 18,25-28

Sl 24(25)

Fl 2,1-11

Mt 21,28-32

 

 

Recordai, Senhor meu Deus, vossa ternura e compaixão!

 

Celebrando o domingo, Dia do Senhor, acolhemos em nosso coração a Palavra de Deus. Nossa assembleia dominical é, sobretudo, assembleia que escuta a Palavra, que reconhece que não pode viver somente de pão, mas que precisa “de toda Palavra que sai da boca de Deus” (Dt 8,3).

A liturgia nos propõe, neste domingo, o texto de Mt 21,28-32, a “parábola dos dois filhos”. Depois de ter sua autoridade questionada em Mt 21,23-25, Jesus conta três parábolas (21,28-32: Parábola dos dois filhos; 21,33-43: Parábola dos vinhateiros homicidas; 22,1-14: Parábola do banquete nupcial) que ilustram a rejeição que ele recebeu da parte de grupos pertencentes ao judaísmo e como sua Palavra foi acolhida justamente pelos que estavam à margem da sociedade e da religião: os publicanos e as prostitutas, e toda sorte de pessoas que, mesmo tendo uma conduta de vida questionável, abriram-se ao maravilhoso anúncio do Evangelho.

O texto deste domingo, Mt 21,28-32, começa com uma parábola, que ocupa os vv. 28-30. São apresentados dois filhos. Os dois são convocados pelo pai a trabalhar na sua vinha. O primeiro a ser convocado disse “não quero”, contudo, tomado de arrependimento[1], resolveu ir trabalhar na vinha de seu pai. O segundo dá uma resposta sem rodeios – “Eu irei, senhor” -, a qual parece manifestar a sua prontidão e obediência. Contudo, este que parecia exteriormente tão pronto a seguir a vontade do pai, acaba por não ir trabalhar na vinha. Mateus não diz que ele se arrependeu e, depois, não foi, como fala do primeiro filho. Diz apenas que “ele não foi” trabalhar na vinha. Talvez, poderíamos entender aqui que desde o início a sua pronta resposta não significava senão uma prontidão de aparência, mas não uma verdadeira disposição de realizar a vontade do Pai.

A parabola dá ocasião a uma pergunta de Jesus: Qual dos dois fez a vontade do Pai? A parábola não deixa dúvida, e os ouvintes de Jesus respondem de modo imediato e sem rodeios: “O primeiro.” É a partir da resposta de seus interlocutores que Jesus vai fazer a aplicação da parábola, que começa com uma afirmação bastante dura: “Em verdade vos digo que os publicanos e as prostitutas vos precederão no Reino de Deus.” O tom solene do “Em verdade” torna ainda mais forte o versículo, onde Jesus fala para os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo, pois, segundo o v. 23 são esses seus interlocutores, que as pessoas consideradas mais vis vão passar à sua frente no Reino de Deus: os cobradores de impostos e as prostitutas.

O v. 32 encerra a aplicação da parábola com uma referência a João Batista. João veio num caminho de justiça, ou seja, pregava a conversão dos pecados em vista da chegada do Reino de Deus, e no entanto os mestres da Lei, os fariseus, os chefes dos sacerdotes e os notáveis do povo não creram nele. As prostitutas e os cobradores de impostos, no entanto, creram. E nem isso foi causa de arrependimento para eles, ou seja, ao verem as prostitutas e os cobradores de impostos se convertendo e buscando viver segundo a Palavra do Senhor, isto deveria ser para esses homens muito religiosos um sinal, mas não o foi, porque eles fecharam seu coração.

A parábola pode ser aplicada também a Cristo. Assim como João, Jesus também veio num caminho de justiça, mas sua Palavra não foi acolhida pelos líderes do povo judaico. As prostitutas e os cobradores de impostos, bem como toda sorte de pecadores, acolheram a sua Palavra. Esses são como o primeiro filho da parábola. No início disseram não ao Pai, mas no fim fizeram sua vontade, pois a vontade do Pai, a “obra de Deus” por excelência é a fé em Cristo, como afirma Jo 6,29: “A obra de Deus é que creiais naquele que ele enviou”. Os chefes dos povo, os mestres da Lei e os fariseus são, por outro lado, como o segundo filho. Parecem obedientes, mas só exteriormente, porque no final não fizeram a vontade do Pai, não creram “naquele que ele enviou”, seu próprio Filho, o Cristo.

Muitos não somente não acolheram o Cristo, como também não entenderam a sua forma de convidar os pecadores à conversão. A eles se aplica bem a primeira leitura:  Vós andais dizendo: ‘A conduta do Senhor não é correta’. Ouví, vós da casa de Israel: É a minha conduta que não é correta, ou antes é a vossa conduta que não é correta? E o profeta segue, mostrando que se o ímpio se converte, Deus o salva, mas o justo, se ele se perverte, se abandona seu caminho de justiça, ele cava a sua propria condenação. A justiça praticada anteriormente não lhe valerá, porque ele “se desviou” da justiça. Assim Jesus segue mostrando a grande misericórdia do Pai, cantada no Salmo 24, que salva todo aquele que se volta para Ele de todo coração. E, ao mesmo tempo, mostra aos mestres da Lei, aos fariseus e os chefes dos sacerdotes, que não podem confiar na sua pretensa “justiça” oriunda da promessa divina ou das funções que desempenham. É necessário que eles também entrem num caminho de conversão, aquele proposto pelo Cristo, no qual os pecadores públicos e as prostitutas entraram.

Por fim, olhamos para a segunda leitura. Sabemos que ela não se encaixa necessariamente no mesmo horizonte temático que une a primeira leitura e o evangelho. É sempre uma lectio cursiva, ou seja, uma leitura continuada de algum texto não-evangélico do Novo Testamento. Hoje São Paulo, neste trecho da carta aos Filipenses, nos convida a ter os mesmos sentimentos de Cristo (Fl 2,5). No hino que vai do v. 6 ao v. 11 o Apóstolo nos apresenta o caminho de kenosis, de rebaixamento do Senhor Jesus, caminho este que o levou a receber do Pai “o nome que está acima de todo nome”. Seguindo esse exemplo de humildade deixado pelo Cristo, devemos resistir ao desejo de vanglória que existe dentro de nós e devemos abandonar ações vazias que visam somente a competição entre os irmãos (Fl 2,3). Devemos procurar o bem do próximo (Fl 2,4) como também Cristo procurou sempre o nosso bem e fez isso maximamente oferecendo-se na cruz para nossa salvação.

Que o Espírito Santo do Senhor, dom do Pai e do Filho, gere em nós um coração novo pela força da Palavra acolhida em nossas assembleias dominicais. Que assim, possamos cantar a misericórdia infinita do Pai que não cansa de chamar a nós, pecadores, à conversão e, uma vez congregados na comunidade, possamos viver na comunhão que o Senhor deseja, abandonando toda vanglória e competição que dividem, que dilaceram o Corpo Místico do Senhor que é a Igreja.

 

 

 

 

[1] O verbo grego “metamelomai” pode significar, também, arrepender-se.