Is 55,10-11

Sl 64

Rm 8,18-23

Mt 13,1-23

 

 

A semente caiu em terra boa e deu fruto…

 

 

A oração coleta da liturgia deste domingo afirma que Deus é aquele que “mostra a luz da verdade aos que erram para retomarem o bom caminho”. Deus, na sua bondade infinita, não permite que o homem ande errante. Ele enviou a sua Palavra, a fim de que, por ela guiados, possamos saber por onde nos conduzir. A liturgia da Palavra, na celebração da Eucaristia, é um dos lugares privilegiados, onde como assembleia reunida, corpo místico de Cristo, acolhemos pessoal e comunitariamente, o que Ele mesmo nos tem a dizer, pois afinal, como declara a Sacrosanctum Concilium no n. 33: “…na liturgia Deus fala a seu povo. Cristo ainda anuncia o Evangelho.”

A primeira leitura e o evangelho, que estão sempre conectados na liturgia da Palavra dominical, nos falam da eficácia da Palavra de Deus. Na primeira leitura, ouvimos um trecho do final da segunda parte do livro de Isaías, chamado de Dêutero-Isaías, os cc. 40-55. Do capítulo 55, que constitui, particularmente nos vv. 1-11, um convite a escutar a Palavra de Deus (v. 3) e um chamado à conversão (vv. 6-7), ouvimos neste domingo os vv. 10-11. A palavra de Deus é comparada com a chuva e a neve. Assim como estas, ao serem enviadas sobre a terra, cumprem a sua função, ou seja, tornar a terra fecunda e capaz de produzir frutos, assim também a Palavra que sai da boca de Deus não volta para Ele sem antes ter cumprido sua função: atingir o coração humano, a fim de que ali também os frutos queridos por Deus possam ser produzidos. Ainda que o solo do nosso coração seja duro e árido, ao ser atingido pela Palavra de Deus ele se torna fecundo. A Palavra de Deus não só torna o nosso coração capaz de produzir frutos, mas ela mesma é a semente que vai eclodir depois em nós. É o que nos ensina o Evangelho de hoje.

Se na primeira leitura a Palavra de Deus é comparada com a chuva e a neve, no evangelho Jesus a compara com a semente. O evangelho deste domingo pode ser dividido em três partes:

 

  1. 1-9: Parábola do semeador
  2. 10-17: Por que Jesus fala em parábolas
  3. 18-23: Explicação da parábola do semeador

 

Na primeira parte do evangelho temos a parábola em si. Estão em cena o semeador, a semente, os pássaros e os tipos de terreno. O semeador é aquele que prega a Palavra: os profetas; Cristo, maximamente; os apóstolos e, também, cada cristão que é chamado a anunciar a Palavra no meio do mundo. A semente é a própria Palavra de Deus, chamada por Jesus no v. 18 de “Palavra do Reino”. Ela é sempre cheia de força e, quando cai em um solo fecundo, produz muito fruto. Nos vv. 18-23 Jesus vai explicar os diversos tipos de solo/terreno que acolhem a Palavra.

A semente caída à beira do caminho é aquela que é roubada pelo Maligno (v.19), simbolizado pelos pássaros que comem a semente (v.4). Estes são os que ouvem a Palavra mas não a “compreendem”. O verbo grego utilizado por Mateus, todavia, pode significar não somente “compreender”, mas também “escutar/fazer atenção”. Os que ouvem a Palavra de Deus de modo “desatento” são como “a beira do caminho”, pois vem o Maligno e lhes rouba a Palavra que não foi devidamente acolhida.

Nos vv. 20-21 Jesus explica o que significa o terreno pedregoso (vv. 5-6). Poderíamos dizer que neste grupo se enquadram os “empolgados”, aqueles que recebem a Palavra de Deus com muita alegria, mas não são profundos, são como o terreno “sem muita terra” (v. 5). Logo que lhes advém sofrimento e perseguição por causa da Palavra, desistem. O seguimento de Cristo não traz ao discípulo só alegria e conforto, mas também lhe exige ascese e traz também perseguições, pois o mundo muitas vezes se contrapõe à verdade e, consequentemente, contra quem pretende pregar essa verdade aos outros, o Evangelho de Cristo. Os que não são profundos no acolher a Palavra, acabam por desistir quando esta lhes traz sofrimento e perseguição.

No v.22 Jesus explica o que significam os espinhos que sufocam a Palavra (v. 7). Para quem acolhe a Palavra, as “preocupações do mundo” e a “ilusão da riqueza” podem ser como que espinhos que, sufocando a Palavra, a impedem de produzir os frutos que ela é capaz de produzir. Por isso a vida cristã é uma luta também interior. Esta consiste numa crescente confiança em Cristo, que nos faz perceber que não estamos sozinhos e que devemos colocar nossa confiança não no que o mundo nos apresenta como segurança, nem tampouco na riqueza, que não poderá nos salvar de nada quando tivermos de partir dessa vida.

Por fim, no v. 23 Jesus explica qual é a terra boa (v. 8). Esse grupo de pessoas é diametralmente oposto àquele apresentado no v. 9. Mateus utiliza o mesmo verbo syniemi (compreender, escutar, fazer atenção). Ao que não está atento à Palavra ouvida, a esse vem o Maligno e a rouba de seu coração. O que ouve a Palavra com atenção, por sua vez, produz muito fruto: cem, sessenta ou trinta, cada um de acordo com a sua própria medida, pois a fecundidade da Palavra é infinita.

Entre os vv. 1-9 (parábola) e 18-23 (explicação da parábola) Mateus apresenta nos vv. 10-17 a pergunta dos discípulos a respeito do porquê de Jesus falar em parábolas e a consequente resposta do Senhor. A resposta de Jesus é clara: aos discípulos foi dado conhecer o Mistério do Reino dos Céus, mas a outros não, por isso o Senhor lhes fala por meio de parábolas, a fim de que neles se realize a profecia de Is 6,9-10: vão ouvir, mas não vão compreender e nem se converter. Em Is 6,10, na sua versão grega, utilizada aqui por Mateus, aparece o mesmo verbo syniemi (compreender, escutar, fazer atenção) que encontramos na explicação da parábola, particularmente nos vv. 19 e 23. O sentido da citação do profeta é claro: o povo escuta e não compreende a Palavra porque fecha o seu coração, não escuta como deveria escutar, não faz caso da Palavra. Da mesma forma Jesus afirma a respeito dos seus contemporâneos que não são se fazem discípulos: a eles o Mistério do Reino permanece oculto porque, tal como na época do profeta Isaías, eles ouvem a Palavra mas não fazem caso dela, por isso não são curados de seus males, não se convertem.

O salmo de hoje nos diz que Deus “coroa o ano todo com seus dons” (v. 12). A Palavra de Deus é um dom sublime, com o qual Deus coroa todo o ano litúrgico, fazendo-nos ouvi-la sempre na liturgia da Palavra. Mas como nós a ouvimos? Não fazemos caso dela? Ou, talvez, até a ouçamos de boa vontade, mas percebemos que ainda somos um tipo de terreno que precisa ser trabalhado: pedras e espinhos nos impedem de deixar que a Palavra acolhida produza frutos. Se ouvimos a Palavra sem fazer caso dela, estamos fechando para nós as portas da conversão e da compreensão do Mistério do Reino dos Céus. Se o nosso caso, no entanto, for o segundo, ou seja, o que percebemos é que somos um terreno que ainda precisa ser trabalhado, então nem tudo está perdido! Devemos, em primeiro lugar, pedir que o Espírito Santo do Senhor nos ajude a remover pedras e espinhos e nos faça mais profundos, a fim de acolhermos a Palavra de Deus num terreno propício. Depois, devemos desenvolver uma intimidade maior com a Palavra. Nesse caminho de crescimento espiritual nos ajuda a disciplina da leitura orante ou Lectio Divina. O contato pessoal e diário com a Palavra certamente nos ajudará a nos tornarmos pouco a pouco um terreno melhor onde os frutos da Palavra semeada possam começar a brotar.

A segunda leitura, pode nos ajudar a concluir nossa reflexão neste domingo. Paulo nos convida a olhar para a glória futura, a fim de percebermos que os sofrimentos deste tempo não têm proporção alguma com essa glória que virá. Ao confiarmos na vida eterna que o Senhor preparou para nós encontramos mais forças para suportar as tribulações e as dificuldades do dia a dia, sabendo que não são essas dificuldades que têm a última Palavra sobre nós, mas sim Cristo, que nos promete e certamente nos dará a vida eterna junto d’Ele.